Sábado, 28 de Março de 2009

Existirão os amigos?



Uns há que acreditam que a realidade que nos circunda não é mais que um reflexo do interior de cada um. Partindo desta premissa, quem é amigo tem amigos, ou melhor, e indo de enconto ao sentido da premissa, se existem amigos em "redor" de alguém esse alguém é certamente amigo.


Mas o que significa objectivamente ser amigo? De imediato podemos reunir algumas ideias que encaixam muito bem na concepção de amizade de muitos. Não obstante, parece-me que a ideia que um tem do que é ser amigo de outrém não é bem a mesma que esse um tem acerca do que significa o outrém ser seu amigo.

Digamos que ser-se amigo de alguém seja respeitá-lo na integra, desde as suas convicções até às suas escolhas. Isto já é bastante, mas ainda podemos sobrecarregar um pouquinho mais as costas das pessoas com a condição de amigo... Podemos considerar que quem nos ajuda é nosso amigo, portanto, ser amigo é também ajudar. Agora, o que é ajudar é outra questão. Nesta concepção, respeitar é uma forma de ajudar, mas ajudar vai mais além. De modo global, ajudar pode ser analisado sob dois pontos de vista: um - objectivo, pragmático, material; outro - subjectivo, inusitado, imaterial.

Socorro-me de um dito popular, para, num sentido metafórico, melhor chegar onde pretendo. Aqui aplica-se o ditado: se alguém te pedir um peixe ensina-o a pescar. Há as pessoas que dão o peixe para não terem concorrência na pesca, mas outras há que dão o peixe por não entenderem que seria melhor ensinarem a pescar e há ainda as que ensinam a pescar.

Bem, olhando sob o ponto de vista objectivo, pragmático, material, é tanto amigo aquele que "ensina a pescar" como aquele que dá o peixe sem se dar conta de que seria possivelmente mais benéfico "ensinar a pescar". Em ambas as posturas há uma intenção pelo bem, e nesse sentido ambas se aproximam do papel de amigo.

Olhando sob o outro ponto de vista, subjectivo, inusitado, imaterial, de todos os tipos de postura é possível fazer uma leitura de amizade! Aqui emerge uma concepção mais abrangente de amizade: é amigo aquele que coloca a sua essência na acção que pratica em relação ao outro. Sim, é verdade, o conceito de amizade é bastante subjectivo! (Não menos verdade, todos os conceitos estão imersos num banho de subjectividade. Contudo, o ser humano continua a insistir que a objectividade tem um papel de relevância bastante acima do da subjectividade.)

Se por um lado, ajudar implica colocarmos a nossa essência na acção, por outro, respeitar implica não cobrar do outro a colocação de essência nas suas acções, não cobrar do outro, portanto, amizade. Assim, a amizade apenas pode existir de nós para o outro: de dentro para fora, não o contrário. Logo, ninguém tem amigos, mas eles existem! Ninguém os tem porque ninguém tem nada, mas os amigos existem desde que cada um consiga SER, consiga aproximar-se de si, da sua essência, da sua Alma.

Ajudar, no sentido de se SER, implica mostrar caminhos, iluminar, provocar a evolução, mas respeitar leva a que permitamos a escolha do caminho, a decisão de quando iniciar a evolução ou até a opção de permancer na escuridão, a aceitação dos tempos de cada um, das suas limitações (como humanos, imperfeitos, que todos somos), dos seus anseios, das suas dúvidas, das suas discordâncias.

A amizade existe, portanto, na esfera do SER, não na esfera do TER!


--- Mendonça ---

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