O que é que faz com que algumas pessoas se tornem geniais em algo? O que terão em comum, cada melhor entre os melhores?
Há quem lhes aponte um Dom com que nasceram, há quem diga que é a Sorte aliada a muita dedicação, muito trabalho, muito esforço, muita perseverança. Certo é que haverá milhões de pessoas por esse mundo fora que têm muito jeito para algo, são muito dedicadas, perseverantes, trabalham arduamente nesse algo e não são geniais. Desta feita, creio que o segredo da genialidade está relacionado com o Dom.
Falar de Dom remete-nos, consideráveis vezes, para questões filosóficas ou mesmo religiosas. Dom é algo a que uma definição simplista é desadequadamente redutora da Sua grandiosidade.
Na minha interpretação, Dom não é mais do que o ajuste continuado e ininterrupto das acções à essência da pessoa.
Nós, seres humanos, somos seres relacionais, como tal a nossa tendência imediata é reagir a acções externas. E como óbvio, há acções externas que vez por outra nos afastam daquilo que somos. (Sim, é certo que há quem defenda que nós somos exactamente tudo o que fazemos. O que não deixa de ter algum sentido!) (Mas...) Dito de outro modo, cada pessoa sabe no mais íntimo de si o que É. Assim, no referencial próprio da pessoa (e só neste faz sentido considerar, pois se assim não fosse haveria uma infinidade de diferentes visões... tantas quantas o número de seres humanos existentes. Isto, partindo do princípio que somos os únicos seres com uma inteligência mordaz o suficiente para dissertar sobre estas questões.), no referencial próprio da pessoa, dizia, cada uma sabe que tem, por vezes, acções que se afastam, umas vezes mais, outras menos, daquilo que considera Ser.
Nesta perspectiva, para o comum dos mortais há frequentemente acções que o afastam da sua essência, que o afastam do estado de Dom!
Em teoria, fomos todos presenteados à nascença com o Dom! A questão que surge agora é: como permitir que o Dom se manifeste? Em teoria, mais uma vez, é extremamente simples: basta pôr em prática a "teoria do fluxo de sentido único".
A "teoria do fluxo de sentido único" encerra a ideia de sempre agir em vez de reagir. Isto significa que toda e qualquer acção deve ter como fonte o que de mais profundo habita em cada um, em vez de levar em consideração o que é realçado por outrém. Neste sentido, a acção de cada um desencadeia exclusivamente um fluxo (de informação, de energia,...) de dentro para fora de si, em vez ser desencadeado esse mesmo fluxo por oposição (e para gerar um equilíbrio) ao pré-existente fluxo de fora (partindo de outros indivíduos) para dentro (do indivíduo em análise).
Concretizemos esta ideia aplicando-a à crise a que (presumo) ninguém está indiferente.
Suponhamos que uma empresa, ou um país, ou qualquer uma pequena parte da sociedade decidia colocar-se numa hipotética redoma onde não fosse permitida a entrada de qualquer informação do exterior (não haveria, portanto, fluxo de fora para dentro), e que cada elemento continuava a desempenhar o seu papel como sempre fez. Suponhamos ainda que quando isso foi decidido todo o mundo vivia em harmonia (entenda-se aqui harmonia como existência de um equilíbrio entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, entre a evolução e a estagnação; seja lá o que signifique cada um desses conceitos para cada um).
Ora, tendo em conta o cenário descrito, esse grupo, uma vez sujeito à protecção auto-imposta, continuaria, indefinidamente a comportar-se como o fazia até então. E cada elemento que antes tivesse o máximo de produtividade, continuaria a tê-lo também indefinidamente.
Bem, certo! O argumento que estou a usar aqui agora pressupõe que é tida infomação do exterior, ainda que de uma época anterior à auto-imposição da protecção. Mas suponhamos que esse grupo é única e exclusivamente composto por elementos cuja informação para desempenharem o seu papel provém somente de dentro de si. Sei que este é um cenário utópico, mas realizável se lhe for adicionado um pouco de pragmatismo. Explico!
Qualquer teoria é descrita no limite do ideal. Assim, não seria diferente para a "teoria de fluxo de sentido único". Para ser praticável, basta pensar que possuímos um filtro e é ele que permite a implementação da teoria de fluxo de sentido único. Pelo filtro só há fluxo em dois sentidos para a energia, ou informação, que não interfere com o nosso estado de Dom. O filtro impede pois o fluxo de fora para dentro de toda a informação ou energia que nos afasta, ainda que milimetricamente, do nosso estado de Dom.
A genialidade, quanto a mim, tem explicação no facto de as pessoas que a possuem terem o seu filtro bastante bem definido e extremamente funcional.
Se cada indivíduo se aproximasse do seu estado de Dom, também, como consequência, a sociedade se aproximaria. Como tudo isto não passam de idealizações, não é possível pernacer indefinidamente nesse estado, então as crises surgem naturalmente. No entanto, ainda que sejam idealizações, para se sair de crises, não será mau começar por pôr em prática a aproximação ao estado de Dom. Durante quanto tempo se consegue fazer isso não interessa para já!
--- Mendonça ---